08/04/2011

Preocupa-me o País e sobretudo os Portugueses num sistema politico cada vez mais próximo de uma oligarquia !

Preocupa-me e entristece-me todos os dias, ver o país refém e nas malhas de um poder urdido por uma autêntica oligarquia, que domina e asfixia a sociedade e a economia.
Mas preocupam-me ainda mais os portugueses que todos os dias lutam para sobreviver, perante a insanidade das classes dominantes que usurparam o poder, não através do sistema eleitoralista de faceta aparentemente democrática, mas onde os cidadãos acabam por eleger quem supostamente os deveria representar, e que os seus eleitos após os rituais e as tomadas de posse, com discursos perfeitamente demagógicos e diria mesmo mentirosos, se deixam logo ao longo dos seus mandatos, manipular pela Oligarquia vigente na sociedade portuguesa, e que é comandada por banqueiros, industriais e outras classes de ricos e mesmo "novos ricos", que estes sim mandam no país, e a a seu bel-prazer o instrumentalizam, por forma a tirar sempre o maior proveito em sem favor.

Manipulam a economia, impedindo a livre concorrência, alimentam-se dos estado através de concursos públicos de fachada, gerem as empresas públicas tendo apenas como intuito apoderarem-se dos bens colectivos, submetendo-os aos seus interesses individuais e de grupos sem mérito ou moral que lhes valha.
No meio disto tudo e pela teia de poderes oligárquicos mantidos desde há muitos anos, prevalece uma economia já de si frágil, e que ainda é submetida à mais ignóbil corrupção que campeia e subverte ainda mais a sociedade e a economia, tornando esta num completo "underground", onde a sobrevivência das empresas e a iniciativa privadas estão sempre dependentes, e uma vez mais das teias de poder dos partidos, das seitas, das ordens e outras organizações dignas de um estado medievo, altamente controlador e mesmo repressivo.

Vivemos numa sociedade de verdadeiro caos, e sem lei, porque de há muito a justiça em Portugal é uma perfeita miríade e se existe, tem como lema único "aplicar a força com os fracos e ser fraca com os fortes". Aliás este já era o lema do antigo regime de Salazar, em termos de cidadania e respeito pelos direitos individuais dos cidadãos e tal continua a marcar a suposta democracia em que nos querem fazer crer, vivemos.

Singra ou enriquece mesmo despudoradamente neste estado de coisas (porque isto já nem sequer é um estado de direito), quem se submete e joga no campo dos interesses instalados, tendo que forçosamente aderir a esquemas corruptos, nada transparentes para a sociedade, com fugas a impostos devidamente programadas e onde também a equidade fiscal, reflete necessariamente o estado da (in) justiça e de uma sociedade altamente imoral e aética, e onde sempre prevalecem critérios de "dois pesos e duas medidas".

Mas pior que a sobrevivência de todos os dias, que os portugueses honestos, sérios, honrados e trabalhadores se vêm obrigados a enfrentar, cada vez em mais degradação das suas condições de vida e desrespeito pelas suas liberdades e sem cada vez menos as garantias que estão gravadas na constituição, mas que foram esquecidas, pelo poder judicial e politico, e mesmo ignoradas deliberadamente na maioria dos casos, são já as situações de saúde física e mentais deste povo submetido a tais perversas condições de vivência, numa sociedade que os asfixia mais e mais, a cada dia que passa.

E tudo isto vem a propósito de um relatório de um Médico Psiquiatra que faz o diagnóstico da saúde mental dos portugueses e que traça um clima de tal forma alarmante, (o que não será de admirar perante o que atrás referi), a que apelo aos políticos e governantes, que eventualmente possam ter um cariz mais humanístico, e possam dedicar uma leitura a este tão grave diagnóstico da saúde mental dos portugueses em geral. Porque é afinal da sobrevivência e do equilíbrio de todo um povo que estamos a falar, e que é bem mais grave do que qualquer divida externa ou outra qualquer crise política que estejamos a enfrentar na actualidade.

Trata-de de um fenómeno de doença mental que tem vindo a alastrar nos portugueses, perante as dificuldades de luta pela vivência diária em condições cada vez mais duras e de injustiça tamanhas, e a que importa dar resposta urgente, em nome primeiro da solidariedade e humanidade, e depois da eventual sobrevivência e equilíbrio de toda uma sociedade.

Fica pois aqui o crítico relatório do Médico Psiquiatra Pedro Afonso e o seu apelo dramático, a que junto o meu pungente grito de alerta como cidadão e humanista, para que as mais altas instâncias da Nação, nomeadamente o Presidente da República em exercício pleno de funções, dele possa tomar conhecimento, e que daqui possa extrair nota e tomar as respectivas providências face a este alerta, mesmo antes que consequências bem mais gravosas para a sociedade, venham a eclodir com grande probabilidade nos próximos tempos!

Francisco Gonçalves
in 19 March 2011
francis.goncalves@gmail.com
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Artigo de Pedro Afonso - Médico psiquiatra
A saúde mental dos portugueses
Transcrição do artigo do médico psiquiatra Pedro Afonso, publicado no
Público, 2010-06-21
Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.
Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária.

Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família.
Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejada de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público.

Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.
Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos
números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um
mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.

E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.
Pedro Afonso
Médico psiquiatra


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