01/04/2013

Escuta, Zé Ninguém !


Escuta, Zé Ninguém, é a realidade actual da maioria dos Portugueses que se vão ver de alguma forma retratados neste livro, como se este fosse um espelho e reflectisse exactamente o seu actual estado de espírito!

Que esta leitura sirva para acordar os espíritos menos inquietos e os acorde para a realidade do momento que actualmente vivemos, grave e que compromete o nosso futuro e o das gerações vindouras.

Que esta leitura vos revele a verdade que não querem ver, porque insistem em não querer ser vocês próprios, em pensar pelas vossa próprias cabeças.

A este propósito deixo aqui uma nota de um discursos de Steve Jobs da Apple, num discurso perante os estudantes da Universidade de Stanford nos EUA :

"O vosso tempo é limitado, portanto não o desperdicem vivendo a vida do outro. Não caiam na armadilha do dogma - que é viver com os resultados do pensamento de outras pessoas. Não deixem que o ruído da opinião dos outros cale a vossa própria voz interior. E o mais importante, ter a coragem de seguir seu coração e intuição. Tudo o resto é secundário. ".

Devemos pensar por nós mesmos - e, assim, pensar diferente, e só deste modo poderemos construir e contribuir para a materialização dos nossos sonhos !

Francisco Gonçalves
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Escuta, Zé Ninguém
 Wilhelm Reich, 1974

Escuta, Zé-ninguém: já há muito que andava para te dizer umas coisas. Mas tu só dás ouvidos aos grandes, gostas de te sentir submisso. Afinal, o que farias se te visses livre? És um pobre coitado, medroso, cobarde, ignorante e naturalmente deprimido. Desprezas-te a ti e aos outros, meu enfermo maldito.

E se te interrogo, respondes-me: «mas que posso eu fazer?». És assim e não queres ser diferente. Aliás, a mudança arrepia-te e perturba-te a segurança medíocre que cuidadosamente alimentas dia após dia. Meu desgraçado, quem és tu para teres direito a opinião própria? Em casa dás pancada na mulher e nos filhos, na taberna embebedas-te como um porco e ainda te restam forças para conspirares contra mim! Que hei-de fazer, meu grande malandro? Não tens onde cair morto nem vivo. Cultivas a tacanhez, a cobiça e a inveja como um jardineiro planta as ervas daninhas no seu próprio jardim. És assim porque queres, meu grande cão. Enquanto queimas criaturas em fornalhas contínuas a responder-me: «mas que posso eu fazer?». Não percebes, meu aldrabãozeco, que todos os grandes pecados da humanidade começam nos pequenos actos tolos que cometes no teu dia-a-dia!? Sim, Zé Ninguém, tu mesmo, estou a falar contigo. Chamas-me utópico e intelectualzinho de merda enquanto tu vives na miséria, matas a própria esperança e a dos teus filhos e ainda berras «Vivas». Ao sábio chamas larápio e gritas: «Agarra que é judeu, agarra que é preto, agarra que é marroquino». Gritas porque tens medo, meu energúmeno narcísico. Pensas sempre na satisfação dos teus pequeninos prazeres e nunca no bem geral.

És assim, Zé Ninguém. «Que posso eu fazer?». Preferes a tasca a uma biblioteca, a televisão a uma passeio com os teus filhos, a jogatina a uma noite de amor com a tua mulher. És incapaz de criar, de dar sem receber e vais sobrevivendo com a parcelazeca do teu quinhão de ouro. Sofres de peste mental, meu ladrãozeco de queixumes: «Ai que me dói uma perna, aí que me dói uma unha, aí que estou tão mal, aí que ninguém sofre tanto como eu, mas que hei-de eu fazer?». És assim, Zé Ninguém. Veneras os teus inimigos e matas os teus amigos. Mas afinal, porque desistes dos teus sonhos Zé Ninguém? Ah animal, soubesse eu calar a tua voz interior de uma vez por todas!

Escuta, Zé Ninguém é uma conversa dirigida ao Zé Ninguém que mora em cada um de nós. Wilhelm Reich fulmina-nos as entranhas macroscopicamente, com um olhar honesto, verdadeiro e duro. As feridas ardem sem dó nem piedade. O pior que temos cá dentro revela-se sem subterfúgios ou máscaras. Um livro que uiva contra a peste emocional que perverteu a humanidade. Infelizmente, peca pelo tom excessivamente messiânico e pela auto-imagem de Super-Homem que Reich cultiva de si próprio ao longo da narrativa.
 
Da autoria de Eduarda Sousa, 2006

Extraído do Blog Rascunho cujo link original em : ( http://www.rascunho.net/critica.php?id=744)
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